Antes de falar de cirurgia

Se você tem lipedema, provavelmente já ouviu coisas muito diferentes sobre cirurgia. Que lipo não resolve. Que lipo cura. Que existe um aparelho específico que não machuca os linfáticos. Que no fim das contas é tudo estética.

Nenhuma dessas frases conta a história inteira. Este texto explica o que a lipoaspiração faz de verdade no lipedema, o que ela não faz, e quais perguntas vale a pena levar para a consulta.

O lipedema é uma doença crônica do tecido gorduroso que atinge quase sempre mulheres. Ele produz um acúmulo de gordura desproporcional e simétrico, principalmente em quadris, coxas e pernas, e em parte das pacientes também nos braços. Os pés e as mãos costumam ser poupados, o que cria aquele degrau característico no tornozelo. Se você ainda está tentando entender se é o seu caso, comece por lipedema não é obesidade: como reconhecer e tratar.

O que separa o lipedema da obesidade comum não é o tamanho. É o conjunto de sintomas: dor sem causa aparente, sensibilidade ao toque e à pressão, hematomas que aparecem com um esbarrão qualquer, sensação de peso e tensão nas pernas no fim do dia, e uma desproporção entre tronco e membros que não cede com dieta nem com exercício.

Uma correção que vale fazer logo de saída: apesar do nome, o lipedema não é uma doença de inchaço. A diretriz alemã de 2024, que é hoje a principal referência internacional, deixa isso claro. O lipedema não é um edema e não é uma falha do sistema venoso ou linfático. O sintoma central é a dor.

Isso não significa que o sistema linfático não importe. Significa que ele entra na história por outro motivo, e a gente chega lá.

O tratamento começa fora do centro cirúrgico

Por décadas, o único caminho foi o tratamento conservador: meia ou malha de compressão, de preferência malha plana, terapia física descongestiva, atividade física regular, cuidado com o peso e manejo das condições associadas. Sobre a parte da compressão, escrevi um guia à parte em meia de compressão: qual escolher e quantos mmHg.

Isso continua sendo a base de tudo. Alivia sintomas, ajuda no inchaço quando ele existe, melhora mobilidade e é pré-requisito para qualquer conversa séria sobre cirurgia. Nenhum cirurgião responsável vai propor uma operação para quem nunca tentou o caminho conservador direito.

Mas existe um limite honesto: esse tratamento não remove o tecido gorduroso doente. Muitas pacientes fazem tudo certo por anos e continuam com dor, limitação e progressão da doença. Foi para elas que a cirurgia foi desenvolvida.

Não é a mesma lipo da estética

A diferença começa no objetivo.

Na lipoaspiração estética, o alvo é o contorno. O resultado se mede no espelho.

Na cirurgia do lipedema, o alvo é o sintoma. O que se busca é reduzir a dor e a sensibilidade, diminuir a sensação de peso, reduzir os hematomas, melhorar a mobilidade e diminuir a necessidade de terapia conservadora no dia a dia. A melhora do contorno acontece, mas como consequência, não como finalidade.

Há também uma diferença de mapa. O lipedema costuma acometer regiões que a lipoaspiração estética simplesmente não trata: a parte interna dos joelhos, as panturrilhas, os tornozelos, a parte de trás das coxas, os braços. Operar lipedema como se opera contorno corporal deixa intacta justamente a área que mais dói.

E precisa ser dito com todas as letras: a cirurgia não cura o lipedema. Ela reduz a quantidade de tecido doente e os sintomas que ele provoca. A doença continua existindo, e o cuidado continua depois.

O que significa preservar os linfáticos

A camada de gordura embaixo da pele não é um bloco homogêneo. Ela é atravessada por uma rede fina de vasos linfáticos, vasos sanguíneos, nervos e feixes de tecido conjuntivo. É a estrutura que sustenta e drena a perna.

Uma lipoaspiração feita de forma agressiva, com cânulas grossas, no plano errado, na direção errada ou com excesso de calor, pode danificar essa rede. E uma lesão linfática causada pela própria cirurgia é um problema novo somado ao antigo, numa perna que já estava sobrecarregada.

Daí veio o conceito de lipoaspiração poupadora de linfáticos, ou lymph sparing liposuction.

Aqui volta o ponto do começo. Como o lipedema não é uma doença linfática, preservar os linfáticos não é o tratamento. É a obrigação de não causar dano. A cirurgia trata a dor e o tecido gorduroso doente. A técnica poupadora existe para que esse tratamento não cobre um preço na drenagem da sua perna.

Não existe máquina milagrosa

Esse é provavelmente o mal-entendido mais explorado comercialmente na área. Nenhum equipamento, sozinho, torna uma cirurgia poupadora de linfáticos.

A preservação depende de um conjunto de coisas que acontecem antes e durante a cirurgia:

  • conhecer o trajeto dos vasos linfáticos naquele membro;
  • planejar e mapear a cirurgia antes de começar;
  • fazer a infiltração anestésica adequada e respeitar o tempo de espera antes de aspirar, conforme a orientação da diretriz alemã;
  • controlar o volume total de solução usada;
  • escolher o calibre e o desenho certos de cânula;
  • trabalhar no plano e na profundidade corretos;
  • seguir a direção longitudinal, ou seja, no sentido do comprimento da perna, e não atravessado;
  • controlar a pressão e a intensidade da aspiração;
  • dosar o volume retirado por sessão;
  • e, no fim, a experiência de quem opera.

Poupadora não quer dizer risco zero

Essa palavra precisa ser usada com honestidade. Uma técnica planejada para preservar a rede linfática reduz o risco de lesão. Ela não elimina o risco.

A equação correta é: menos trauma leva a menos lesão linfática, que leva a menor risco de problema de drenagem depois.

A equação errada é: menos trauma leva a risco nenhum.

Quem promete a segunda versão está vendendo, não informando.

Como saber se a cirurgia faz sentido para você

A indicação não se baseia no tamanho da perna. Aliás, a diretriz alemã de 2024 foi além disso e determinou que o estadiamento clássico, de I a III, não deve mais decidir sozinho quem opera. Duas mulheres no mesmo estágio podem ter necessidades completamente diferentes.

Uma paciente pode ter grande alteração no formato do corpo e poucos sintomas. Outra pode ter volume moderado, dor intensa e limitação real no dia a dia. A primeira talvez não precise operar. A segunda pode se beneficiar muito.

Uma avaliação bem feita leva em conta:

  • o diagnóstico correto, porque lipedema não é obesidade, não é linfedema e não é insuficiência venosa, ainda que possa coexistir com os três;
  • a distribuição e o tipo de acometimento;
  • a intensidade da dor e a resposta ao tratamento conservador, que é o critério central;
  • a limitação funcional e a mobilidade;
  • a presença de inchaço e de componente linfático associado;
  • a existência de problema venoso junto, o que costuma pedir um ultrassom Doppler na mesma avaliação;
  • peso e composição corporal, avaliados pela relação entre cintura e altura, e não apenas pelo IMC;
  • estabilidade de peso nos meses anteriores;
  • qualidade da pele e presença de fibrose;
  • suas expectativas, conversadas abertamente;
  • e a possibilidade real de fazer o pós-operatório e o acompanhamento direito.

Sobre peso, a orientação atual não é uma proibição, e sim um critério de prudência. Quando o IMC é muito elevado ou a relação entre cintura e altura está alterada, o tratamento da obesidade costuma vir antes. Não é julgamento estético. É que operar obesidade não trata lipedema, e misturar as duas coisas leva a frustração dos dois lados.

Como é a cirurgia na prática

A técnica atual usa anestesia tumescente, que consiste em infiltrar a camada de gordura com um grande volume de solução diluída de anestésico. Isso reduz o sangramento, diminui a dor e afasta as estruturas que se quer preservar.

Os dois sistemas recomendados hoje são a lipoaspiração assistida por vibração, conhecida como PAL, e a assistida por jato de água, conhecida como WAL. Ambas trabalham de forma mais delicada sobre o tecido que não é gordura. Não existe evidência de que uma seja superior à outra para todas as pacientes. Mais importante do que a marca do aparelho é a estratégia cirúrgica.

Na maioria dos casos o tratamento é feito em mais de uma etapa. A diretriz alemã prevê de uma a quatro sessões para as pernas e de uma a duas para os braços, dependendo da extensão.

O pós-operatório envolve compressão, retomada da terapia física descongestiva e um período de paciência com o resultado, porque o edema cirúrgico leva semanas a meses para se resolver. A cirurgia não substitui o tratamento conservador. Ela se soma a ele.

O que esperar do resultado

Os estudos são consistentes em um ponto que costuma surpreender: o benefício não é proporcional à quantidade de gordura retirada.

No estudo que abriu essa linha de pesquisa, com 25 pacientes acompanhadas por seis meses, a redução do volume da perna foi de cerca de 7 por cento, enquanto a dor caiu de 7,2 para 2,1 numa escala de 0 a 10. Ou seja, uma redução modesta de volume acompanhada de uma queda expressiva de dor. Esses números descrevem o que aconteceu naquele grupo de pacientes e não são uma previsão do que vai acontecer com você.

Não se trata de esvaziar a perna. Trata-se de retirar o tecido que dói.

Os dados de longo prazo, com pacientes acompanhadas por 4, 8 e 12 anos, mostram que a melhora se mantém, com redução também da necessidade de tratamento conservador ao longo do tempo. E o ensaio clínico randomizado conduzido na Alemanha, o maior estudo já feito na área, encontrou vantagem do grupo operado em dor, função física e qualidade de vida aos 12 meses.

Uma ressalva de honestidade: até a última revisão deste texto, os resultados completos desse ensaio ainda não tinham sido publicados em revista científica revisada por pares, e já receberam críticas metodológicas. É a melhor evidência que a área já teve, mas não é uma evidência definitiva. Desconfie de quem apresentar como se fosse.

De onde vem esse conhecimento

A ideia de operar lipedema preservando os vasos linfáticos não nasceu pronta nem foi invenção de uma pessoa só. Ela foi construída ao longo de trinta anos, principalmente dentro da flebologia, da linfologia e da dermatologia alemãs.

A anestesia tumescente veio do dermatologista americano Jeffrey Klein, em 1987, e é a base de tudo o que veio depois. Em 1997, o dermatologista, flebologista e linfologista alemão Manuel Cornely desenvolveu e nomeou a lipoescultura linfológica, formalizando a ideia de uma cirurgia desenhada a partir da anatomia linfática. Em 1999, o grupo de Munique demonstrou em estudo anatômico que a direção da cânula muda tudo: aspirar no sentido do comprimento da perna causa muito menos lesão do que atravessado. Em 2006, Wilfried Schmeller e Ilka Meier-Vollrath publicaram a primeira série clínica de pacientes com lipedema operadas com técnica tumescente. E em 2009, o cirurgião, flebologista e linfologista alemão Josef Stutz mostrou, analisando o tecido aspirado de 30 pacientes com um marcador específico para vasos linfáticos, que praticamente não havia estrutura linfática no material retirado.

Foi nesse terreno que entrou o dermatologista/flebologista alemão Stefan Rapprich. A contribuição dele não foi inventar a técnica, e é justo não creditá-lo por isso. Foi transformar uma prática clínica em objeto de pesquisa. Seu estudo de 2011 mediu com escalas, antes e depois, o que a cirurgia fazia pela dor e pela qualidade de vida. Seu trabalho de 2015, com 85 pacientes, firmou a ideia de que a cirurgia só faz sentido dentro de um programa de cuidado mais amplo, com fisioterapia antes e depois, atividade física, tratamento da obesidade quando existe e apoio psicológico quando necessário. Rapprich é hoje um dos autores da diretriz alemã que organiza a área.

O princípio que ele ajudou a firmar segue valendo: tratar o tecido gorduroso doente sem transformar a cirurgia numa nova agressão ao sistema linfático.

Perguntas frequentes

A cirurgia cura o lipedema?+

Não. Ela reduz a quantidade de tecido doente e os sintomas que ele causa. A doença permanece, e o cuidado conservador continua depois.

Preciso ter feito tratamento conservador antes?+

Sim. Tratamento conservador adequado e documentado é pré-requisito em todos os protocolos atuais. No sistema público alemão, por exemplo, exige-se pelo menos seis meses sem alívio suficiente antes de autorizar a cirurgia.

Qual tecnologia é a melhor?+

Não há evidência de que a lipoaspiração assistida por vibração ou a assistida por jato de água seja superior para todas as pacientes. A diretriz alemã recomenda as duas. Já as técnicas que usam calor, como laser, radiofrequência e ultrassom, foram consideradas não úteis no lipedema pelo consenso internacional de Viena, pelo risco de dano linfático.

Quantas sessões vou precisar?+

Depende da extensão e do volume acometido. A referência atual é de uma a quatro sessões para as pernas e de uma a duas para os braços.

Preciso emagrecer antes?+

Depende do seu caso. Peso estável nos meses anteriores é requisito. Quando existe obesidade importante associada, o tratamento dela costuma vir primeiro, porque operar obesidade não trata lipedema.

A cirurgia pode piorar o linfedema?+

O risco existe e não é zero, mesmo com técnica poupadora. É exatamente por isso que a escolha da técnica, a seleção da paciente e a experiência de quem opera pesam tanto.

Vou parar de usar meia de compressão?+

Não necessariamente, e não logo. A compressão faz parte do pós-operatório e continua tendo papel depois. O que os estudos de longo prazo mostram é redução da necessidade de terapia conservadora, não o abandono dela.

Esses critérios alemães valem no Brasil?+

Eles não são norma aqui, mas são hoje a referência internacional mais bem fundamentada e orientam boa parte da prática qualificada. As regras de cobertura no Brasil seguem caminho próprio.

Série sobre lipedema
Lipedema não é obesidadeLipoaspiração no lipedemaComo é o tratamento aqui
Quer saber se isso vale para o seu caso

O caminho é uma avaliação individual, com diagnóstico bem feito e uma conversa honesta sobre o que dá e o que não dá para esperar.

Quero avaliar se a cirurgia faz sentido no meu caso
FZ
Sobre o autor
Dr. Fabrício Zucco

Cirurgião vascular em Blumenau. Titulado em Cirurgia Vascular, Cirurgia Endovascular, Radiologia Intervencionista e Ecografia Vascular com Doppler. CRM-SC 10.864.

Formação, titulação e publicações

Fontes

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  2. Frick A, Hoffmann JN, Baumeister RG, Putz R. Liposuction technique and lymphatic lesions in lower legs: anatomic study to reduce risks. Plast Reconstr Surg. 1999;103(7):1868-1873.
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Este conteúdo tem finalidade informativa e educacional e não substitui a avaliação médica individual. A decisão sobre indicação cirúrgica no lipedema deve ser tomada em consulta, considerando diagnóstico, sintomas, tratamentos já realizados e características individuais de cada paciente.