Poucas coisas na cirurgia vascular são tão vendidas e tão mal explicadas quanto a meia de compressão. Ela é comprada por indicação de uma amiga, herdada de um parente, escolhida pela cor. Boa parte de quem chega ao consultório usando meia não sabe dizer quantos mmHg ela tem.

O desfecho costuma ser um dos dois: ou a pessoa se dá bem e não larga mais, ou usa uma semana e abandona. A diferença está em três decisões tomadas antes da compra: quantos mmHg, que altura e para qual objetivo.

A resposta rápida

Qual compressão? Para pernas cansadas e peso no fim do dia, a faixa de suporte, abaixo de 15 mmHg, costuma bastar. Quando já existe inchaço, as fontes registram efeito a partir de 15 mmHg. Para varizes com sintomas e edema persistente, a faixa de 20 a 30 mmHg é a mais usada. Acima disso a indicação vem de avaliação, não da prateleira.

Qual altura? A 3/4, que vai até logo abaixo do joelho, é a mais usada e a mais bem tolerada, e costuma dar conta quando o problema está da panturrilha para baixo. Se o edema sobe além do joelho, a altura muda.

Qual tamanho? Pela circunferência do tornozelo e da panturrilha, medidas de manhã. Não tem relação com número de calçado nem com tamanho de roupa.

Quando usar? Em geral durante o dia, vestindo logo ao acordar e tirando para dormir. Ela rende mais quando você caminha.

Quando não usar? Se você tem ou suspeita de doença arterial nas pernas, infecção de pele, neuropatia avançada ou insuficiência cardíaca descompensada, a meia precisa de avaliação antes. Comprimir uma perna que já recebe pouco sangue arterial pode piorar a situação.

Como a meia funciona

As veias da perna trabalham contra a gravidade. Para o sangue subir, elas dependem das válvulas, que impedem que ele desça de novo, e da panturrilha, que espreme as veias profundas a cada passo. Quando as válvulas param de fechar direito, parte do sangue volta e se acumula, e dali vêm o peso, o inchaço e o cansaço.

A meia age como parede externa: reduz o calibre da veia, aproxima as válvulas doentes e melhora o rendimento dessa bomba. Ela tem uma pressão de repouso, que você sente parado, e uma de trabalho, que surge quando o músculo se expande e esbarra no tecido. Por isso rende mais com você em movimento.

Vale desfazer uma expressão comum: a meia não "melhora a circulação" em geral. Ela atua no retorno venoso. Não abre artéria, e é por isso que em perna com doença arterial ela deixa de ser inofensiva.

Em uma frase. A meia não conserta a válvula danificada. Ela compensa a falha enquanto está vestida, e só enquanto está vestida.

Uma meia terapêutica também não aperta igual do pé até em cima: ela é graduada, comprime mais no tornozelo e afrouxa conforme sobe, e é esse degrau que dá ao sangue uma direção preferencial. Meia comum de loja, mesmo apertando, não tem graduação, e pode virar garrote no meio da panturrilha.

Três produtos com o mesmo apelido

"Meia de compressão" virou nome genérico para coisas que não são intercambiáveis, e isso gera erro de compra. A meia de suporte tem baixa compressão e venda livre. A graduada terapêutica é fabricada sob especificação técnica, com pressão definida no tornozelo, e é dela que trata este texto. Já a antiembólica hospitalar é projetada para o paciente deitado: não é a meia de quem anda, nem substitui a terapêutica no dia a dia.

Quantos mmHg escolher

O número em mmHg é a pressão no tornozelo. O Projeto Diretrizes da SBACV com a AMB e o CFM organiza assim: abaixo de 15 mmHg é meia de suporte, e meias de 10 a 15 mmHg já se mostraram efetivas nos sintomas iniciais de insuficiência venosa; acima de 15 mmHg já é terapêutica; de 23 a 32 mmHg é a indicação após escleroterapia, por até três semanas; em torno de 40 mmHg ou acima é o patamar da úlcera venosa. As faixas da etiqueta mudam de fabricante e de país: trate o número da caixa como ponto de partida.

Em uma frase. Mais pressão não significa melhor resultado. A pressão certa é a menor que resolve aquele objetivo, dentro do que a sua perna tolera e do que a sua circulação arterial permite.

Faixas frequentemente utilizadas. Serve para entender a lógica, não como prescrição.
ObjetivoFaixa frequenteAltura usualObservação
Pernas cansadas, muito tempo em péaté 15 mmHg3/4Venda livre, alívio de sintoma
Edema que aparece no fim do dia15 a 20 mmHg3/4Costuma bastar para o inchaço, sem tratar a causa
Varizes com sintomas e edema20 a 30 mmHgDepende do nível do refluxoControla sintoma, não trata a variz
Depois de escleroterapia ou ablaçãoacima de 20 mmHgConforme a área tratadaDuração definida pela equipe
Viagem longa com risco aumentado15 a 30 mmHg3/4Indicação depende do seu risco
Depois de trombose, com sintomasavaliação individualConforme o segmento acometidoPara sintoma e edema, não como rotina
Úlcera venosaem torno de 40 mmHg ou maisEm geral bandagemSempre sob supervisão

Qual altura e qual tamanho

Existe a ideia de que meia mais alta é meia melhor, e ela não se sustenta. A altura é uma decisão sobre onde o problema está: depende da distribuição do edema, do nível da doença no mapeamento, do objetivo e do que você tolera todo dia. Se o inchaço fica do tornozelo à panturrilha, subir até a coxa não acrescenta benefício, só desconforto. A 3/4 é a mais usada e a mais bem tolerada, mas não é solução universal.

O tamanho é o que mais se erra, e é o erro que mais transforma meia boa em meia inútil. A numeração depende da circunferência do tornozelo, da panturrilha e, nos modelos altos, da coxa. Meça de manhã: medida tirada no fim do dia produz meia frouxa, e frouxa quer dizer sem efeito. Em loja especializada a medição é feita no local.

Quando a meia realmente ajuda

A qualidade da evidência muda conforme a situação, e o tipo de benefício também. Aliviar sintoma, reduzir inchaço, evitar uma trombose vista só em exame e evitar uma trombose com sintomas são coisas diferentes, e misturá-las é o erro mais comum quando se fala de compressão.

Varizes: alívio sim, tratamento não

Uma revisão Cochrane de 2021, com 13 estudos e 1.021 participantes, concluiu que não há evidência de certeza alta suficiente para dizer se a meia funciona como tratamento inicial de varizes em pessoas sem úlcera. O NICE é mais direto e recomenda não oferecer meia para tratar varizes, a menos que o tratamento intervencionista seja inadequado para aquele paciente.

Isso não a torna inútil: ela alivia sintoma em muita gente, e alívio de sintoma é objetivo legítimo. Só não é tratamento da doença varicosa, porque não faz a variz sumir nem impede que apareçam novas. Quem trata a variz é o procedimento definido pelo mapeamento com ultrassom Doppler.

Inchaço e pós-procedimento

Reduzir edema é o que a compressão faz de forma mais consistente, e é o benefício percebido mais rápido. Depois de termoablação, cirurgia ou escleroterapia, as diretrizes brasileiras recomendam compressão com grau A, com pressões acima de 20 mmHg. Sobre a duração há divergência honesta: o documento brasileiro cita até três semanas após escleroterapia, o NICE limita a sete dias. Quem define é a equipe que fez o procedimento.

Viagens longas: depende do seu risco

Este é o ponto que mais gera generalização equivocada. Uma revisão Cochrane de 2021, com 12 ensaios e 2.918 passageiros, encontrou 3 casos de trombose venosa profunda assintomática entre quem usou meia contra 47 entre quem não usou, com certeza alta. As meias também reduziram inchaço.

Duas ressalvas mudam a leitura. O desfecho foi trombose assintomática, achada em rastreio, e não trombose com sintomas, bem mais rara. E o benefício absoluto em quem tem risco baixo é pequeno, porque o risco de partida já é pequeno.

Por isso as diretrizes do American College of Chest Physicians tratam o tema por estratificação. Para viajantes de longa distância com risco aumentado, sugerem caminhar com frequência, exercitar a panturrilha, assento no corredor quando possível e meia graduada abaixo do joelho, com 15 a 30 mmHg no tornozelo. Para os demais viajantes, o mesmo documento sugere não usar a meia de rotina. E para todos sugere não usar aspirina nem anticoagulante com essa finalidade. Contam como risco aumentado trombose prévia, cirurgia ou trauma recentes, câncer ativo, gestação, uso de estrogênio, idade avançada, mobilidade limitada, obesidade grave e trombofilia.

Úlcera venosa e pós-trombose

Na úlcera venosa a compressão é o tratamento principal: outra revisão Cochrane de 2021, com 14 estudos e 1.391 participantes, mostrou aumento da chance de cicatrização em 12 meses (risco relativo 1,77), com certeza moderada. Depois de uma trombose, porém, a história mudou. O estudo SOX encontrou síndrome pós-trombótica em 14,2% de quem usou meia ativa contra 12,7% de quem usou placebo, e a diretriz da American Society of Hematology de 2020 passou a recomendar contra o uso rotineiro em quem não tem alto risco, deixando a meia para alívio de sintoma e de edema.

Quando não usar sem avaliação

O Projeto Diretrizes SBACV, AMB e CFM lista como contraindicações formais: doença arterial periférica, flebites sépticas, infecções de pele nos membros inferiores, linfangites, erisipelas, eczemas, alergia ao material, neuropatia avançada, insuficiência cardíaca descompensada e desproporção entre tornozelo e perna.

A primeira é a mais importante e a menos conhecida. Se as artérias já entregam pouco sangue à perna, apertar por fora reduz ainda mais essa chegada. O parâmetro é o índice tornozelo-braquial, medido em consulta, mas ele não funciona como interruptor. Valores entre 0,8 e 1,2 costumam ser compatíveis com compressão plena e valores muito baixos são contraindicação, mas no meio há uma zona que exige julgamento clínico: uma revisão de 13 diretrizes internacionais mostrou que não há consenso entre 0,6 e 0,8.

Há ainda uma armadilha. Em diabetes de longa data, doença renal ou calcificação arterial, a artéria enrijece e resiste ao manguito, produzindo um índice falsamente alto. Valores acima de 1,3, e com mais razão acima de 1,4, sugerem esse cenário: ali um número aparentemente normal não exclui doença arterial, e a avaliação exige outros recursos, como pressão nos dedos e análise da onda ao Doppler. Pernas frias, dor na panturrilha que passa quando você para, feridas que não fecham ou diabetes de longa data pedem investigação arterial antes de comprimir qualquer coisa.

Sinal de alerta. Se a meia causa dor, formigamento que não passa, dedos pálidos ou arroxeados, ou deixa marca funda na pele, tire e procure avaliação. Meia bem indicada aperta, mas não dói.

Como usar no dia a dia

Vista de manhã, com a perna desinchada. Se ela já inchou, deitar com as pernas elevadas por alguns minutos resolve. Depois de colocar, alise bem até não sobrar dobra, porque dobra e rolinho concentram pressão numa faixa estreita e viram garrote. Pelo mesmo motivo não se dobra a borda para baixo, nem se corta a meia para ajustar comprimento.

Lave à mão ou em ciclo delicado, sem amaciante e sem alvejante, secando à sombra, porque calor e amaciante degradam a elastina. Troque quando perder firmeza: se passou a entrar fácil demais, já não entrega a pressão indicada. Calçadores e luvas de borracha resolvem boa parte da dificuldade de vestir.

Um dado para ajustar expectativa: as diretrizes brasileiras registram que, no uso isolado e prolongado em pacientes sem úlcera, cerca de 30% abandonam o tratamento em dois anos. Se está difícil manter, a solução quase sempre passa por rever compressão, altura, tamanho ou tecido. Raramente é falta de disciplina.

Perguntas frequentes

Meia de compressão melhora a circulação?

Ela melhora o retorno venoso, o sangue que volta da perna para o coração, e não a circulação arterial, o sangue que chega à perna. A distinção não é preciosismo: em perna com doença arterial, comprimir reduz ainda mais essa chegada.

Meia de compressão elimina varizes?

Não. Não faz a veia dilatada voltar ao normal nem impede que novas apareçam. O NICE recomenda não oferecer meia para tratar varizes quando existe opção intervencionista adequada.

Posso viajar usando meia de compressão?

Pode, e em voos longos ela reduz inchaço e desconforto. Como prevenção de trombose depende do seu risco: as diretrizes americanas sugerem meia abaixo do joelho com 15 a 30 mmHg para viajantes com risco aumentado, e não usar de rotina para os demais.

Quem não pode usar meia de compressão?

Quem tem doença arterial periférica, infecção de pele ou erisipela ativa, eczema em crise, alergia ao material, neuropatia avançada, insuficiência cardíaca descompensada ou desproporção importante entre tornozelo e perna. Nesses casos a avaliação vem antes.

Meia de compressão previne varizes?

Não há evidência de que impeça novas varizes. Na gestação, as diretrizes brasileiras registram melhora dos sintomas dolorosos sem impedir o surgimento de novas, e o NICE sugere considerar a meia para o inchaço associado às varizes na gravidez.

O que levar deste texto

A meia alivia sintoma, controla inchaço, ajuda depois de procedimentos e é tratamento de verdade na úlcera venosa. Não trata a variz, não previne varizes novas e não serve igualmente para todo mundo que entra num avião. Não existe uma meia universalmente melhor: a escolha depende da doença, do objetivo, da pressão, da altura e da anatomia da sua perna, e essas cinco coisas só aparecem juntas em uma avaliação.

Descubra qual compressão é indicada para a sua perna

A avaliação com mapeamento Doppler define a faixa em mmHg, a altura e a medida, e verifica a circulação arterial antes de indicar compressão. Agende sua consulta com o Dr. Fabrício Zucco em Blumenau.

Quero saber qual compressão é indicada para mim
FZ
Sobre o autor
Dr. Fabrício Zucco

Cirurgião vascular em Blumenau. Titulado em Cirurgia Vascular, Cirurgia Endovascular, Radiologia Intervencionista e Ecografia Vascular com Doppler. CRM-SC 10.864.

Formação, titulação e publicações

Fontes

  1. Figueiredo MAM, Castro AA, Simões R. Terapia de Compressão de Membros Inferiores. Projeto Diretrizes. Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina, 2011. amb.org.br/files/_BibliotecaAntiga/terapia_de_compressao_de_membros_inferiores.pdf
  2. Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV). Guia prático de terapia compressiva. São Paulo: SBACV; 2022. sbacv.org.br/wp-content/uploads/2022/03/guia-pratico-de-terapia-compressiva.pdf
  3. Clarke MJ, Broderick C, Hopewell S, Juszczak E, Eisinga A. Compression stockings for preventing deep vein thrombosis in airline passengers. Cochrane Database Syst Rev. 2021;(4):CD004002. doi.org/10.1002/14651858.CD004002.pub4
  4. Shi C, Dumville JC, Cullum N, Connaughton E, Norman G. Compression bandages or stockings versus no compression for treating venous leg ulcers. Cochrane Database Syst Rev. 2021;(7):CD013397. doi.org/10.1002/14651858.CD013397.pub2
  5. Knight (nee Shingler) SL, Robertson L, Stewart M. Graduated compression stockings for the initial treatment of varicose veins in people without venous ulceration. Cochrane Database Syst Rev. 2021;(7):CD008819. doi.org/10.1002/14651858.CD008819.pub4
  6. Kahn SR, Shapiro S, Wells PS, et al. Compression stockings to prevent post-thrombotic syndrome: a randomised placebo-controlled trial (SOX trial). Lancet. 2014;383(9920):880-888. doi.org/10.1016/S0140-6736(13)61902-9
  7. Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular. Insuficiência Venosa Crônica: Diagnóstico e Tratamento. Projeto Diretrizes, 2015. sbacvsp.com.br/wp-content/uploads/2016/05/insuficiencia-venosa-cronica.pdf
  8. Kahn SR, Lim W, Dunn AS, et al. Prevention of VTE in Nonsurgical Patients: Antithrombotic Therapy and Prevention of Thrombosis, 9th ed: American College of Chest Physicians Evidence-Based Clinical Practice Guidelines. Chest. 2012;141(2 Suppl):e195S-e226S. doi.org/10.1378/chest.11-2296
  9. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Varicose veins: diagnosis and management. Clinical guideline CG168, 2013. nice.org.uk/guidance/cg168
  10. Lim CS, Davies AH. Graduated compression stockings. CMAJ. 2014;186(10):E391-E398. doi.org/10.1503/cmaj.131281
  11. Wade R, Sideris E, Paton F, et al. Graduated compression stockings for the prevention of deep-vein thrombosis in postoperative surgical patients: a systematic review and economic model. Health Technol Assess. 2015;19(98). ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK327572
  12. Ortel TL, Neumann I, Ageno W, et al. American Society of Hematology 2020 guidelines for management of venous thromboembolism: treatment of deep vein thrombosis and pulmonary embolism. Blood Adv. 2020;4(19):4693-4738. doi.org/10.1182/bloodadvances.2020001830
  13. Team V, Gethin G, Ivory JD, Crawford K, Bouguettaya A, Weller CD. Ankle brachial pressure index and compression application: review summary. Wound Practice and Research. 2019;27(2):74-77. doi.org/10.33235/wpr.27.2.74-77

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a consulta médica. Somente um médico pode avaliar o seu caso, indicar exames e definir o tratamento adequado.