As varizes estão entre as queixas mais comuns em um consultório de cirurgia vascular. Elas são aquelas veias dilatadas e tortuosas que aparecem sob a pele, principalmente nas pernas. Para muita gente, o incômodo começa pela aparência. Mas na consulta eu costumo dizer uma coisa que costuma surpreender: a variz quase nunca é só sobre estética. Ela costuma ser a parte visível de algo que está acontecendo por dentro da circulação.
Isso não quer dizer que toda variz precise de cirurgia, nem que você deva se assustar. Quer dizer apenas que vale a pena entender o que está por trás delas. Neste texto eu explico, de forma simples, quando as varizes são de fato só uma questão estética e quando elas são um sinal de que é hora de tratar.
O que são varizes, na prática
Para o sangue voltar das pernas até o coração, ele precisa subir, indo contra a gravidade. Quem ajuda nesse trabalho são as veias e, dentro delas, pequenas válvulas que funcionam como comportas: deixam o sangue passar para cima e impedem que ele volte para baixo. A contração dos músculos da panturrilha, quando você caminha, funciona como uma bomba que empurra esse sangue para cima.
Quando essas válvulas deixam de fechar direito, parte do sangue reflui e se acumula na perna. Esse acúmulo aumenta a pressão dentro das veias, que vão se dilatando com o tempo. É assim que surgem as varizes. Segundo a Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, as varizes são, na essência, uma manifestação da insuficiência venosa crônica, o nome que damos a esse mau funcionamento do retorno do sangue.
Vale diferenciar dois sistemas. As veias superficiais ficam logo abaixo da pele e são as que enxergamos quando viram varizes. As veias profundas correm no meio dos músculos e carregam a maior parte do sangue de volta ao coração. Na maioria das varizes o problema começa no sistema superficial, mas o ultrassom Doppler é importante justamente para confirmar que o sistema profundo está saudável antes de qualquer tratamento.
Quando é só estético
Existem os vasinhos, aqueles pequenos vasos finos, avermelhados ou arroxeados, que ficam bem na superfície da pele. O nome técnico é telangiectasia. Na maioria das vezes eles não causam sintomas e o incômodo é mesmo estético.
Ainda assim, gosto de fazer um alerta. Às vezes, esses vasinhos são a ponta do iceberg. Por baixo deles pode existir uma veia maior funcionando mal, que ainda não dá sintomas evidentes. Por isso, mesmo quando a queixa é estética, vale a pena um olhar atento para descartar um problema circulatório mais profundo. Tratar só a superfície sem investigar o que está embaixo costuma levar os vasinhos a voltarem mais rápido.
Sinais de que passou de estético
Alguns sinais indicam que as varizes já não são apenas uma questão de aparência e merecem avaliação. Fique atento se você tem:
- Dor, peso ou cansaço nas pernas, em especial no fim do dia ou após muito tempo em pé.
- Inchaço nos tornozelos, que costuma piorar no calor e ao longo do dia.
- Câimbras e queimação, além de coceira no trajeto das veias.
- Veias que aumentam de tamanho e número com o passar do tempo.
- Mudança na cor da pele, com manchas escuras perto do tornozelo.
- Feridas que demoram a cicatrizar, um sinal mais avançado que pede avaliação sem demora.
Você não precisa ter todos esses sinais. Um ou dois já são motivo suficiente para marcar uma consulta e entender o que está acontecendo.
Vasinho sem sintoma costuma ser estético. Dor, peso, inchaço, mudança na cor da pele ou feridas são sinais de que existe uma doença venosa por trás, e aí o tratamento deixa de ser só sobre aparência.
Por que as varizes aparecem
A causa mais importante é a predisposição da família. Se seus pais ou avós tiveram varizes, suas chances aumentam. Não dá para mudar a genética, mas dá para conhecer o próprio risco e cuidar mais cedo.
Além da herança familiar, alguns fatores favorecem o aparecimento ou a piora das varizes. Entre os mais citados pela literatura e pelas entidades médicas estão o sexo feminino, com influência dos hormônios da gestação e das diferentes fases da vida, o avanço da idade, o excesso de peso, o sedentarismo e as profissões que exigem muitas horas em pé ou sentado. Ter tido uma trombose no passado também pode deixar sequelas que favorecem varizes.
Os hormônios ajudam a explicar por que as varizes são mais frequentes em mulheres. A progesterona relaxa a parede das veias, e as diferentes fases da vida, como a gestação e a menopausa, mudam esse equilíbrio. A gravidez soma ainda o aumento do volume de sangue e o peso do útero sobre as veias da pelve, o que ajuda a entender por que muitas varizes aparecem ou pioram nesse período.
As profissões também contam. Quem passa o dia em pé, como professores, cirurgiões, cabeleireiros e vendedores, ou o dia sentado, como motoristas e quem trabalha muitas horas ao computador, mantém o sangue mais tempo parado nas pernas. Isso não causa varizes sozinho, mas favorece o aparecimento em quem já tem tendência.
Como o diagnóstico é feito
A avaliação começa pela conversa e pelo exame das pernas. Mas o exame que realmente mostra o que está acontecendo é o ultrassom Doppler, também chamado de ecodoppler venoso. Ele é indolor, não usa radiação e mostra, em tempo real, por onde o sangue está passando e em quais veias existe refluxo.
Com esse mapa em mãos, consigo classificar a gravidade e planejar o tratamento certo para o seu caso. Os cirurgiões vasculares usam uma classificação internacional chamada CEAP, que organiza a doença venosa em estágios, desde os vasinhos até as feridas na pele. Essa classificação ajuda a decidir, com critério, quem só precisa de acompanhamento e quem se beneficia de um procedimento.
Na prática, a classificação CEAP vai dos vasinhos e das veias reticulares, passa pelas varizes propriamente ditas, pelo inchaço e pelas alterações de cor da pele, até chegar às feridas na perna. Saber em qual estágio você está evita dois erros comuns: tratar demais um caso leve e tratar de menos um caso que já pede atenção. O Doppler também é útil para descartar uma trombose e para planejar exatamente qual veia precisa ser cuidada.
As opções de tratamento hoje
Não existe um tratamento único que sirva para todo mundo. O plano é sempre individual e pode combinar mais de uma técnica. De forma geral, o cuidado segue do mais simples para o mais específico.
Medidas conservadoras
São a base para muitos pacientes e um apoio importante para os demais. Incluem as meias de compressão, a elevação das pernas, a prática regular de atividade física e o controle do peso. Elas aliviam sintomas e ajudam a controlar a progressão, mesmo que não façam as varizes já formadas desaparecerem.
Escleroterapia
É a aplicação de uma substância que fecha a veia por dentro. Funciona bem para vasinhos e veias de menor calibre e costuma ser feita no consultório. Quando a substância é transformada em espuma e guiada pelo ultrassom, ela alcança também veias maiores. Vale registrar que o Ministério da Saúde incorporou a escleroterapia com espuma ao SUS em 2017, o que mostra o reconhecimento da técnica como opção eficaz e pouco invasiva.
Laser e radiofrequência
São técnicas endovenosas, ou seja, feitas por dentro da veia, através de um acesso mínimo. O calor do laser ou da radiofrequência fecha a veia doente sem a necessidade de retirá-la por cortes. São procedimentos minimamente invasivos, com recuperação rápida.
Cirurgia
A cirurgia continua sendo uma boa opção em muitos casos, sobretudo para veias mais calibrosas. As técnicas atuais são bem menos agressivas do que no passado, com pequenas incisões e, na maioria das vezes, internação curta. Retirar uma variz doente não prejudica a circulação, porque as veias saudáveis assumem o retorno do sangue.
Uma dúvida frequente é sobre o tempo de recuperação. Nos procedimentos minimamente invasivos, a maioria das pessoas volta às atividades leves em poucos dias, seguindo as orientações de uso da meia de compressão e de retorno gradual aos exercícios. A escleroterapia, principalmente a de vasinhos, costuma precisar de mais de uma sessão para um bom resultado, porque tratamos as veias em etapas.
O que acontece se não tratar
Muita gente adia o cuidado por anos porque a variz não dói o suficiente para incomodar. O problema é que a doença venosa tende a avançar devagar e em silêncio. Com o tempo, o excesso de pressão nas veias pode levar a inchaço persistente, escurecimento da pele perto do tornozelo, inflamação das veias e, nos casos mais avançados, feridas na perna, chamadas de úlceras venosas, que são difíceis de cicatrizar.
Existe ainda o risco de tromboflebite, quando uma variz inflama e forma um coágulo. Nada disso serve para assustar, e sim para reforçar uma ideia simples: quanto antes se avalia, mais fácil é o tratamento e melhor o resultado.
Outro ponto que merece atenção é o impacto no dia a dia. Pernas que doem, incham e cansam limitam o trabalho, o sono e a atividade física. Tratar a doença venosa não é vaidade, é recuperar conforto e qualidade de vida, além de prevenir as complicações mais sérias lá na frente.
Dá para prevenir?
Não dá para mudar a genética, mas dá para reduzir o risco e retardar a progressão com hábitos simples. Movimentar-se ao longo do dia, evitando ficar horas parado na mesma posição, ajuda a bomba da panturrilha a trabalhar. Manter o peso saudável, elevar as pernas alguns minutos por dia, praticar atividade física e usar meias de compressão quando indicado também fazem diferença. Nenhuma dessas medidas substitui a avaliação médica, mas todas somam.
Um cuidado extra vale para viagens longas de avião ou de carro, quando ficamos muitas horas sentados. Levantar de vez em quando, movimentar os pés e os tornozelos e manter-se bem hidratado ajuda a circulação. Pessoas com maior risco podem se beneficiar da meia de compressão nesses momentos, e vale conversar sobre isso na consulta.
Alguns mitos que vale desfazer
Cruzar as pernas causa varizes. Não há comprovação de que cruzar as pernas cause varizes. O que realmente pesa é a tendência da família e passar muito tempo parado na mesma posição.
Depois de tratar, a variz sempre volta. As técnicas atuais tratam bem as veias doentes. Como a doença é de tendência, podem surgir novas varizes com o tempo, e é por isso que o acompanhamento ajuda a manter o resultado. Isso é diferente de dizer que o tratamento não funciona.
É só um problema de estética. Como vimos ao longo do texto, a variz costuma ser a parte visível de uma doença venosa. Nem toda variz precisa de cirurgia, mas quase toda merece ser avaliada.
Homem não tem varizes. Tem sim. É mais comum em mulheres, mas os homens também desenvolvem a doença venosa e, muitas vezes, procuram ajuda mais tarde.
Quando procurar um cirurgião vascular
Se você tem varizes que incomodam, sente dor, peso ou inchaço nas pernas, notou mudança na cor da pele ou tem histórico de varizes na família, vale marcar uma avaliação. E se a sua questão for realmente só estética, a consulta continua valendo a pena, porque garante que não há nada mais sério por trás e orienta o melhor caminho para um bom resultado.
O mais importante é não esperar a doença avançar. Uma avaliação simples, com conversa e ultrassom Doppler, já responde a maior parte das dúvidas e define se você precisa apenas de acompanhamento ou de um tratamento específico.
Quer entender o que está por trás das suas varizes?
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Agendar pelo WhatsAppFontes
- Kikuchi R, Nhuch C, Drummond DAB, et al. Diretriz brasileira de doença venosa crônica da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular. J Vasc Bras. 2023;22:e20230064. doi.org/10.1590/1677-5449.202300642
- Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV). Diretrizes. sbacv.org.br/profissionais-da-saude/diretrizes
- SBACV, Regional São Paulo. Varizes. sbacvsp.com.br/varizes
- Ministério da Saúde, Biblioteca Virtual em Saúde. Varizes. bvsms.saude.gov.br/varizes
- Ministério da Saúde. Portaria nº 709, de 9 de março de 2017 (tratamento esclerosante de varizes no SUS). bvsms.saude.gov.br
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a consulta médica. Somente um médico pode avaliar o seu caso, indicar exames e definir o tratamento adequado.