A dor pélvica crônica é uma queixa que leva muitas mulheres a uma verdadeira via crúcis de consultas. Passa pelo ginecologista, pelo gastroenterologista, às vezes pelo urologista, e nem sempre se encontra uma explicação. Em parte desses casos, a origem está em um lugar pouco investigado: as veias da pelve.
A condição tem nome, síndrome da congestão pélvica, e é mais comum do que se imagina. Neste texto eu explico o que são as varizes pélvicas, como reconhecer os sintomas e por que o tratamento por embolização tem mudado a vida de muitas pacientes.
O que são varizes pélvicas
Assim como as veias das pernas, as veias da pelve também podem se dilatar e deixar de retornar o sangue de forma eficiente. Segundo artigo de revisão publicado no Jornal Vascular Brasileiro, a síndrome da congestão pélvica é definida como dor pélvica crônica por mais de seis meses associada a varizes na região perineal ou vulvar, resultantes de refluxo ou obstrução nas veias gonadais, glúteas ou ao redor do útero.
Em outras palavras, o sangue se acumula nas veias da pelve, aumenta a pressão local e provoca dor e desconforto. Essas veias dilatadas às vezes aparecem também na parte de fora, como varizes na vulva, na virilha e na face interna das coxas.
Sintomas da congestão pélvica
Os sintomas costumam ter um padrão que ajuda no reconhecimento. Fique atenta se você tem:
- Dor no baixo ventre que dura meses, sem causa ginecológica clara
- Sensação de peso ou pressão na pelve, sobretudo ao ficar muito tempo em pé
- Piora da dor ao longo do dia e após esforço
- Desconforto que se intensifica no período menstrual
- Varizes em locais atípicos, como vulva, virilha e parte interna das coxas
- Em algumas mulheres, desconforto associado às relações sexuais
É comum que a dor melhore ao deitar, quando a pressão sobre as veias diminui, e piore ao final de um dia inteiro em pé. Esse comportamento é uma pista importante.
Por que aparece
A congestão pélvica está muito ligada às gestações. As mudanças hormonais e o aumento do volume de sangue durante a gravidez, somados à pressão do útero sobre as veias da pelve, favorecem a dilatação venosa. Por isso a síndrome é mais frequente em mulheres que já engravidaram, em geral na terceira e na quarta décadas de vida, conforme descreve a literatura vascular.
Existe ainda uma relação com as varizes das pernas. Em algumas mulheres, o refluxo que vem da pelve alimenta varizes nos membros inferiores e explica por que elas voltam mesmo após o tratamento das pernas isoladamente.
Por que é pouco diagnosticada
Apesar de prevalente, a síndrome da congestão pélvica ainda é pouco diagnosticada, tanto nos consultórios de ginecologia quanto nos de angiologia, como aponta o Jornal Vascular Brasileiro. A revisão estima que ela responde por algo entre 16% e 31% dos casos de dor pélvica crônica, uma parcela nada desprezível.
O motivo é simples. Como os sintomas se confundem com outras causas, e como a investigação das veias pélvicas não faz parte da rotina de todos os especialistas, muitas mulheres passam anos sem resposta. Pensar nessa possibilidade já é meio caminho para o diagnóstico.
Se você tem dor pélvica há mais de seis meses, sem explicação clara, e o desconforto piora quando fica em pé, vale investigar a origem venosa. É uma causa tratável.
Como investigar
A investigação começa pela conversa e pelo exame clínico, com atenção às varizes atípicas. O ultrassom Doppler é um bom primeiro passo para avaliar o refluxo. Em muitos casos, exames de imagem complementares, como a angiotomografia ou a angiorressonância das veias da pelve, ajudam a confirmar o diagnóstico e a planejar o tratamento.
O objetivo dessa etapa é mapear exatamente quais veias estão doentes, para que o tratamento seja preciso e dirigido.
O tratamento por embolização
O tratamento mais estabelecido é a embolização, um procedimento endovascular, ou seja, feito por dentro das veias. Por um acesso mínimo, o cirurgião vascular alcança as veias doentes e as fecha por dentro, o que interrompe o refluxo e alivia a congestão. Não há cortes, e o procedimento tem demonstrado bons resultados no controle da dor, como descreve a literatura vascular brasileira.
Por ser minimamente invasivo, costuma permitir alta rápida e retorno breve às atividades. Para muitas pacientes, é a diferença entre conviver com uma dor crônica e recuperar a qualidade de vida.
Recuperação
A recuperação da embolização costuma ser tranquila. A maioria das pacientes retorna às atividades leves em poucos dias, seguindo as orientações individuais. O acompanhamento após o procedimento é importante para confirmar a melhora dos sintomas e para cuidar, quando existe, das varizes das pernas associadas.
Quando procurar
Se você tem dor pélvica crônica sem explicação, com piora ao ficar em pé, ou notou varizes em locais incomuns como a vulva e a parte interna das coxas, vale conversar com um cirurgião vascular. Nem toda dor pélvica é de origem venosa, mas essa possibilidade precisa entrar na investigação.
Reconhecer a síndrome da congestão pélvica é dar um nome a um sofrimento que muitas mulheres carregam em silêncio. E, com o diagnóstico correto, existe um tratamento eficaz e pouco invasivo.
Outras causas de dor pélvica
A dor pélvica crônica tem muitas causas possíveis, e nem todas são vasculares. Condições ginecológicas, urinárias e intestinais entram no diagnóstico, e por isso o ideal é uma investigação em conjunto, muitas vezes com o ginecologista. A síndrome da congestão pélvica costuma ser lembrada quando as causas mais comuns já foram avaliadas e a dor persiste, principalmente com aquele padrão de piora ao ficar em pé.
O ponto que defendo é simples: a origem venosa precisa fazer parte da lista de possibilidades. Como ela ainda é pouco investigada, muitas mulheres passam anos sem que ninguém olhe para as veias da pelve.
Quando as varizes das pernas voltam
Existe uma situação que acende o alerta para o cirurgião vascular. Quando as varizes das pernas retornam pouco tempo depois de um tratamento bem feito, ou quando aparecem em locais atípicos, como a parte interna e posterior das coxas, vale investigar se existe um refluxo vindo da pelve alimentando essas veias. Nessas situações, tratar apenas as pernas pode não resolver, porque a origem está mais acima.
Identificar e tratar o refluxo pélvico, quando ele existe, ajuda a explicar recidivas e a planejar um tratamento mais completo e duradouro.
Perguntas frequentes
A embolização é uma cirurgia grande?
Não. A embolização é um procedimento endovascular, feito por dentro das veias através de um acesso mínimo, sem cortes cirúrgicos. Por isso costuma permitir alta rápida e retorno breve às atividades.
Toda mulher com varizes na vulva tem congestão pélvica?
Não necessariamente, mas varizes na vulva, na virilha e na parte interna das coxas são um sinal que merece investigação da origem pélvica, especialmente quando vêm acompanhadas de dor.
Fiz vários exames e não acharam nada. Pode ser isso?
Pode. Justamente por ser pouco investigada, a congestão pélvica costuma passar despercebida em avaliações que não olham para as veias da pelve. Se a dor persiste e piora em pé, vale conversar com um cirurgião vascular.
O impacto na vida da mulher
A dor pélvica crônica vai muito além do desconforto físico. Ela interfere no trabalho, no sono, na atividade física e, com frequência, na vida íntima e no bem-estar emocional. Conviver anos com uma dor sem nome, ouvindo que os exames não mostram nada, é desgastante e muitas vezes solitário.
Por isso, dar um nome e uma explicação para o que a paciente sente já é parte do cuidado. Quando a origem venosa é identificada e tratada, muitas mulheres relatam uma mudança importante na qualidade de vida. E, quando a causa é outra, a investigação também ajuda, porque direciona para o especialista certo.
O acompanhamento costuma ser conjunto, unindo o cirurgião vascular ao ginecologista e, quando necessário, a outros profissionais. O objetivo é olhar para a mulher por inteiro, e não apenas para um exame isolado.
Como é feita a embolização, passo a passo
A embolização é um procedimento endovascular, guiado por imagem. Por um acesso mínimo em uma veia, em geral no pescoço ou na virilha, o cirurgião vascular conduz um cateter bem fino até as veias doentes da pelve. Todo o trajeto é acompanhado por equipamentos de imagem, o que permite chegar com precisão ao ponto certo.
Uma vez alcançadas as veias com refluxo, elas são fechadas por dentro, com dispositivos como pequenas molas e substâncias que promovem a oclusão. Ao interromper o refluxo, alivia-se a congestão que causa a dor. Como não há cortes cirúrgicos, o desconforto é pequeno e a recuperação costuma ser rápida.
O sangue que passava por essas veias doentes é redistribuído naturalmente por outras veias saudáveis, sem prejuízo para a circulação. É o mesmo princípio que já usamos no tratamento de outras veias com refluxo.
Outras dúvidas comuns
A embolização deixa a mulher infértil?
A embolização das varizes pélvicas é dirigida às veias doentes e não tem como objetivo interferir na fertilidade. Qualquer dúvida específica sobre planejamento familiar deve ser conversada com o seu médico antes do procedimento, para uma orientação individual.
Preciso repetir o procedimento?
Na maioria dos casos, o tratamento é resolutivo para as veias tratadas. O acompanhamento serve para confirmar a melhora e para cuidar de eventuais varizes associadas nas pernas, que às vezes precisam de uma abordagem própria.
Como as veias da pelve causam a dor
Para entender a congestão pélvica, ajuda pensar no mesmo mecanismo das varizes das pernas. Dentro das veias existem válvulas que organizam o fluxo do sangue e impedem que ele volte para trás. Quando essas válvulas falham nas veias da pelve, principalmente nas veias ovarianas e ao redor do útero, o sangue reflui e se acumula na região.
Esse acúmulo aumenta a pressão dentro das veias, que vão se dilatando e formando as varizes pélvicas. É essa hipertensão venosa local que gera a sensação de peso e a dor que piora ao longo do dia e ao ficar em pé, quando a gravidade dificulta ainda mais o retorno do sangue.
Compreender esse caminho explica por que o tratamento se concentra em fechar as veias doentes. Ao interromper o refluxo, reduz-se a pressão e, com ela, os sintomas.
Prevenção e acompanhamento
Não existe uma fórmula que previna totalmente a congestão pélvica, já que ela se relaciona a fatores como as gestações e a própria anatomia venosa. Mas o acompanhamento faz diferença. Reconhecer a condição cedo evita anos de dor sem explicação e permite tratar antes que o desconforto vire rotina.
Depois do tratamento, o seguimento com o cirurgião vascular confirma a melhora e observa a circulação como um todo, incluindo as pernas. É um cuidado contínuo, pensado para a mulher e não apenas para um exame.
Se você chegou até aqui se identificando com o que leu, guarde uma ideia: dor pélvica que não passa não é algo com que se deva simplesmente aprender a conviver. Ela tem causas investigáveis, e a origem venosa é uma delas. Procurar avaliação não significa que você tem certeza do diagnóstico, significa apenas dar o próximo passo para entender o seu corpo. Muitas mulheres descobrem, depois de anos, que a resposta estava em um lugar que ninguém tinha olhado. Vale conversar, investigar e, se for o caso, tratar.
Um último ponto prático: leve para a consulta um breve histórico dos seus sintomas, incluindo há quanto tempo eles começaram, o que melhora e o que piora, e se há relação com o período menstrual ou com o esforço. Esse relato simples ajuda muito o especialista a montar o raciocínio e a decidir quais exames fazem sentido no seu caso.
Dor pélvica que não passa merece investigação
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Agendar pelo WhatsAppFontes
- Corrêa MP, Bianchini L, Saleh JN, Noel RS, Bajerski JC. Síndrome da congestão pélvica e embolização de varizes pélvicas. J Vasc Bras. 2019;18:e20190061. doi.org/10.1590/1677-5449.190061
- Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV). Diretrizes. sbacv.org.br/profissionais-da-saude/diretrizes
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a consulta médica. Somente um médico pode avaliar o seu caso, indicar exames e definir o tratamento adequado.
