Entre as doenças venosas, a trombose é a que mais preocupa, e com razão. Diferente das varizes, que evoluem devagar, a trombose venosa profunda pode aparecer de forma rápida e, em algumas situações, se tornar uma emergência. A boa notícia é que, reconhecida a tempo, ela tem tratamento eficaz.
Neste texto eu explico o que é a trombose venosa profunda, quais sinais merecem atenção imediata, quem tem mais risco e o que dá para fazer para prevenir.
O que é a trombose venosa profunda
A trombose venosa profunda, ou TVP, é a formação de um coágulo dentro das veias profundas, aquelas que ficam no meio dos músculos e carregam a maior parte do sangue de volta ao coração. De acordo com as diretrizes da SBACV, ela é mais comum nos membros inferiores, respondendo pela grande maioria dos casos.
Esse coágulo obstrui, parcial ou totalmente, a passagem do sangue. É daí que vêm os sintomas na perna afetada, e é daí também que surge o principal risco, quando um fragmento do coágulo se desprende e viaja pela circulação.
Por que é uma doença séria
A trombose merece atenção por causa de duas complicações. A primeira é a embolia pulmonar, que acontece quando parte do coágulo se solta e chega aos pulmões. As diretrizes destacam que ela tem alta importância clínica pelo risco à vida, e por isso o diagnóstico e o tratamento rápidos são fundamentais.
A segunda é a síndrome pós-trombótica, uma sequela de longo prazo. Depois de uma trombose, a veia pode ficar danificada e levar a inchaço persistente, dor, alterações na cor da pele e, em casos mais graves, feridas na perna. Tratar cedo e bem reduz o risco dessas sequelas.
Sinais de alerta
Os sinais da trombose costumam aparecer em uma das pernas e de forma relativamente rápida. Procure avaliação sem demora se notar:
- Inchaço em uma perna, em geral só de um lado
- Dor ou sensibilidade na panturrilha, que pode lembrar uma câimbra persistente
- Sensação de calor e vermelhidão na região
- Endurecimento e desconforto ao apalpar a musculatura da perna
Falta de ar súbita, dor no peito, batimento acelerado ou tontura podem indicar embolia pulmonar. Diante desses sintomas, procure um serviço de emergência imediatamente.
Nem todo inchaço de perna é trombose, e nem toda trombose dá sintomas evidentes. Por isso, na dúvida, o mais seguro é procurar avaliação médica em vez de esperar para ver.
Fatores de risco
Vários fatores aumentam a chance de trombose, quase sempre por deixar o sangue mais tempo parado ou mais propenso a coagular. Entre os mais reconhecidos estão:
- Imobilização prolongada, como no pós-operatório e em internações
- Cirurgias de maior porte, sobretudo ortopédicas e oncológicas
- Câncer e alguns tratamentos oncológicos
- Gestação e período pós-parto
- Uso de anticoncepcionais ou de reposição hormonal
- Trombofilias, que são tendências herdadas a formar coágulos
- Idade mais avançada, obesidade e tabagismo
- Histórico pessoal ou familiar de trombose
Ter um fator de risco não significa que a trombose vai acontecer. Mas conhecer o próprio risco ajuda a redobrar os cuidados em momentos críticos, como cirurgias e longos períodos de imobilidade.
Trombose e viagens longas
Viagens longas, de avião ou de carro, merecem uma menção à parte. Ficar muitas horas sentado, com pouco espaço para mexer as pernas, deixa o sangue mais parado. Para a maioria das pessoas o risco é baixo, mas ele aumenta em quem já tem outros fatores.
Medidas simples ajudam bastante: levante-se e caminhe de tempos em tempos, movimente os pés e os tornozelos com frequência, mantenha-se hidratado e evite bebidas alcoólicas em excesso. Quem tem risco maior pode se beneficiar da meia de compressão, e vale conversar com o médico antes de viagens muito longas.
Como é o diagnóstico
O diagnóstico começa pela avaliação clínica, que estima a probabilidade de trombose a partir dos sintomas e dos fatores de risco. A partir daí, dois recursos são muito usados, conforme as diretrizes brasileiras. O exame de sangue chamado D-dímero ajuda principalmente a afastar a trombose quando a suspeita é baixa. E o ultrassom Doppler, indolor e sem radiação, confirma a presença do coágulo e mostra sua localização.
Esse exame é rápido, seguro e pode ser repetido quando necessário. É a principal ferramenta de imagem para confirmar a trombose venosa profunda das pernas.
O tratamento
O tratamento da trombose se baseia nos anticoagulantes, medicamentos que impedem o crescimento do coágulo e reduzem o risco de embolia, enquanto o próprio organismo reabsorve o trombo ao longo do tempo. As diretrizes descrevem diferentes opções, incluindo as heparinas, os antagonistas da vitamina K e os anticoagulantes orais diretos.
A escolha do medicamento, da dose e do tempo de tratamento é individual e deve ser sempre conduzida por um médico. Em situações específicas, existem outras abordagens, mas a base do cuidado é a anticoagulação bem orientada e acompanhada.
Como prevenir
A prevenção é possível e importante, principalmente em momentos de maior risco. Movimentar-se, evitar longos períodos totalmente parado, manter-se hidratado e controlar o peso são medidas gerais que ajudam. Em internações e cirurgias, existem protocolos de profilaxia, com meias, dispositivos de compressão e, quando indicado, medicação, para reduzir o risco.
Se você já teve trombose ou tem fatores de risco importantes, o acompanhamento com o cirurgião vascular ajuda a planejar essas medidas de forma personalizada.
Quando procurar com urgência
Procure avaliação sem demora diante de inchaço e dor que surgem em uma perna, sobretudo se houver calor e vermelhidão. E, diante de falta de ar súbita ou dor no peito, procure um serviço de emergência na hora, porque pode ser embolia pulmonar.
A trombose venosa profunda é séria, mas tratável. O que faz diferença é o tempo. Reconhecer os sinais e agir rápido protege a sua perna e, mais do que isso, protege a sua vida.
Trombose superficial e trombose profunda
Vale diferenciar duas situações que costumam ser confundidas. A tromboflebite superficial acontece em uma veia logo abaixo da pele, muitas vezes em uma variz, e aparece como um cordão endurecido, dolorido e avermelhado. Já a trombose venosa profunda ocorre nas veias profundas, no meio dos músculos, e é a que traz maior risco de embolia pulmonar.
As duas precisam de avaliação médica, mas a trombose profunda exige atenção redobrada e diagnóstico rápido. Só o exame clínico nem sempre distingue uma da outra, e é aí que o ultrassom Doppler ajuda a esclarecer.
Cuidados no pós-operatório e em internações
Boa parte das tromboses acontece em situações de imobilidade, como no pós-operatório e durante internações prolongadas. Por isso, os hospitais adotam medidas de prevenção nesses momentos. A Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso reúne recomendações justamente para reduzir esse risco em pacientes clínicos e cirúrgicos.
Entre as medidas estão a movimentação precoce sempre que possível, o uso de meias e dispositivos de compressão e, quando indicado, a medicação preventiva. Se você vai passar por uma cirurgia, pergunte ao seu médico como será feita a prevenção da trombose no seu caso.
Perguntas frequentes
Trombose só acontece em idoso?
Não. Embora o risco aumente com a idade, a trombose pode ocorrer em pessoas jovens, especialmente diante de fatores como cirurgias, imobilização, uso de hormônios, gestação e tendência familiar a coagular.
Toda dor na panturrilha é trombose?
Não. A maioria das dores na panturrilha tem outras causas, como esforço muscular. Mas dor acompanhada de inchaço em uma só perna, calor e vermelhidão merece avaliação sem demora.
Depois de uma trombose, fico curado?
O coágulo é tratado com anticoagulação, mas a veia pode ficar com sequelas, a chamada síndrome pós-trombótica. O acompanhamento com o cirurgião vascular ajuda a controlar sintomas e a reduzir complicações a longo prazo.
Mitos sobre trombose
Trombose só dá em quem tem varizes. Não. Ter varizes é um dos fatores, mas a trombose profunda pode ocorrer sem varizes, principalmente após imobilização, cirurgias e em outras situações de risco.
Passar uma pomada resolve. Não. A trombose venosa profunda é tratada com anticoagulantes orientados por um médico. Pomadas e massagens não tratam o coágulo e, em alguns casos, mexer na perna sem avaliação pode ser arriscado.
Se a dor passou, está tudo bem. Nem sempre. Os sintomas podem oscilar, e o risco de complicação como a embolia continua enquanto o quadro não é avaliado. Melhora dos sintomas não substitui o diagnóstico.
Trombose é sempre óbvia. Nem sempre. Algumas tromboses dão poucos sintomas, e por isso a atenção aos fatores de risco e a avaliação diante de qualquer inchaço em uma perna são tão importantes.
A síndrome pós-trombótica
Depois de uma trombose, a veia pode não voltar ao normal por completo. As válvulas internas, responsáveis por organizar o fluxo do sangue, ficam danificadas, e parte do sangue passa a refluir. Esse dano de longo prazo é o que chamamos de síndrome pós-trombótica, descrita nas diretrizes como uma das principais complicações da doença.
Ela pode se manifestar com inchaço que não passa, dor e sensação de peso na perna, mudança na cor da pele e, nos casos mais graves, feridas. Tratar a trombose corretamente desde o início, usar a compressão quando indicada e manter o acompanhamento são as melhores formas de reduzir esse risco e de controlar os sintomas quando eles aparecem.
Anticoagulação: cuidados no dia a dia
Quem usa anticoagulante precisa de alguns cuidados durante o tratamento. É importante tomar a medicação exatamente como foi orientado, sem interromper por conta própria, porque a suspensão precoce aumenta o risco de um novo coágulo. Ao mesmo tempo, como esses remédios reduzem a coagulação, é preciso atenção a sangramentos e informar outros médicos e o dentista sobre o uso.
Alguns anticoagulantes exigem controle de exames periódicos, outros não. A escolha do medicamento leva em conta o seu caso, e o acompanhamento serve justamente para ajustar a dose, definir o tempo de tratamento e orientar o retorno seguro às atividades.
Quem já teve trombose precisa de cuidado contínuo
Ter tido uma trombose no passado é, por si só, um fator de risco para novos episódios. Isso não significa viver com medo, mas sim manter um acompanhamento e redobrar a atenção em momentos de maior risco, como cirurgias, longos períodos de imobilidade e viagens prolongadas.
O cirurgião vascular ajuda a definir, de forma individual, quais cuidados fazem sentido para você, incluindo o uso de meias de compressão, a duração do tratamento anticoagulante e as medidas de prevenção em situações específicas. Esse acompanhamento também é a melhor forma de identificar cedo a síndrome pós-trombótica e de controlar seus sintomas.
A mensagem central é de tranquilidade com responsabilidade. A trombose é uma doença séria, mas com diagnóstico rápido, tratamento correto e acompanhamento, a grande maioria das pessoas se recupera bem e segue a vida com qualidade.
Por fim, vale reforçar a ideia mais importante deste texto: diante de um inchaço com dor que surge em uma perna só, não fique esperando passar. A trombose venosa profunda é um daqueles casos em que agir cedo muda o desfecho, tanto para proteger a perna quanto para evitar a embolia pulmonar. Procurar uma avaliação rápida nunca é exagero. Se não for trombose, você sai aliviado. E se for, o tratamento começa no tempo certo, que é o que faz toda a diferença.
Na dúvida sobre um inchaço na perna, não espere
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Agendar pelo WhatsAppFontes
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- Albricker ACL, Freire CMV, et al. Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso, 2022 (SBC, CBR e SBACV). Arq Bras Cardiol. 2022;118(4):797-857. abccardiol.org/wp-content/uploads/articles_xml/0066-782X-abc-118-04-0797/0066-782X-abc-118-04-0797.x27815.pdf
- Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV). Diretrizes. sbacv.org.br/profissionais-da-saude/diretrizes
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a consulta médica. Somente um médico pode avaliar o seu caso, indicar exames e definir o tratamento adequado.
