Quase toda consulta sobre varizes chega com a mesma pergunta pronta: "doutor, é melhor laser ou espuma?". É compreensível, porque é assim que o assunto circula nas redes sociais. Mas ela parte de uma premissa equivocada, a de que existe uma técnica superior às outras.

Não existe. Laser, espuma e cirurgia são ferramentas diferentes para problemas diferentes dentro da mesma doença. Escolher entre elas sem saber o que está acontecendo nas suas veias é como escolher um remédio antes do diagnóstico. Neste texto eu explico, sem termos difíceis, o que cada técnica resolve bem, onde ela não é a melhor opção e o que dizem as pesquisas que acompanharam pacientes de verdade por cinco e por catorze anos.

O mapa vem antes da técnica

A pergunta certa não é "qual é o melhor tratamento", e sim "qual é o melhor tratamento para o meu caso". A diferença entre as duas está no mapa das suas veias: quais estão doentes, qual o calibre delas, se a safena está comprometida e em que estágio a doença está.

Duas pessoas com pernas parecidas por fora podem ter mapas venosos distintos. Uma pode ter a safena larga e funcionando mal, e precisa tratá-la. A outra pode ter varizes visíveis alimentadas por veias menores, com a safena preservada, e não precisa. A mesma técnica nas duas daria resultados muito diferentes.

Esse mapa é feito com ultrassom Doppler, um exame indolor, sem radiação e sem contraste, que mostra em tempo real por onde o sangue está passando e onde ele está voltando pelo caminho errado. Ele responde às perguntas que definem o tratamento:

  • Alguma safena está comprometida? Se sim, tratar só as veias visíveis tende a resultar em recidiva, porque a origem do problema continua ali.
  • Qual o calibre das veias doentes? Veias grossas e veias finas respondem de forma diferente, e isso pesa direto na escolha da técnica.
  • O problema está acima ou abaixo do joelho? Abaixo do joelho os nervos passam bem perto da veia, e o uso de calor exige mais cuidado.
  • As veias profundas estão normais? Se houve trombose no passado, o planejamento muda, porque as veias de superfície podem estar compensando.

Entram também coisas que o exame não mostra: outros problemas de saúde, o risco de anestesia, e o fato de que a safena pode servir como ponte em uma cirurgia do coração no futuro. E entra a sua preferência, quanto de recuperação cabe na sua vida agora. Isso não é capricho, é critério legítimo.

Em uma frase

A técnica não escolhe o paciente. O mapa venoso escolhe a técnica. Se alguém indicar um tratamento definitivo de varizes sem ter feito um Doppler completo, vale buscar uma segunda opinião.

Laser endovenoso

Uma fibra bem fina é introduzida dentro da veia doente por uma pequena punção, guiada pelo ultrassom. O laser aquece a parede da veia por dentro, ela se fecha e o organismo a absorve com o tempo. O sangue passa a circular pelas veias saudáveis, que são a maioria.

É a técnica que mais mudou o tratamento das varizes de safena nas últimas duas décadas. Um estudo brasileiro publicado no Jornal Vascular Brasileiro acompanhou 253 pacientes e 417 pernas tratadas dessa forma, e a safena fechou em 405 das 417, o equivalente a 97 de cada 100.

É boa indicação quando o Doppler confirma problema em uma das safenas e quando se busca recuperação rápida, evitando anestesia mais ampla e internação. O que ele não faz sozinho: trata o tronco da veia, não as varizes tortuosas visíveis na pele, nem os vasinhos finos. Na prática, quase sempre é combinado com outra técnica.

Escleroterapia com espuma

Um medicamento é misturado com ar até formar uma espuma densa, que é injetada dentro da veia doente com agulha fina. A veia reage, se fecha e depois é reabsorvida. Com auxílio do ultrassom, dá para tratar veias que não estão visíveis na superfície.

É procedimento de consultório, sem internação e sem anestesia geral. O paciente sai andando e retoma a rotina no mesmo dia, com orientação de compressão.

Funciona bem em veias de pequeno e médio calibre, nas tortuosas visíveis na perna, em varizes que voltaram anos depois de uma cirurgia e como complemento depois de tratar a safena. Costuma exigir mais de uma sessão: é tratamento em etapas, não evento único.

Há um ponto que costuma ser omitido: quando o problema principal está na safena, a espuma usada sozinha não é a melhor escolha, porque a variz volta com muito mais frequência, como você vai ver nos números adiante. Isso não diminui a técnica, só define onde ela é excelente.

Cirurgia de varizes

Consiste na retirada da veia doente, em geral com anestesia local associada a sedação ou raquidiana. É a técnica mais antiga das três, feita há cerca de um século, e por isso também a mais estudada, servindo de referência de comparação nos trabalhos científicos.

Ser a mais antiga não significa ser ultrapassada. Continua sendo a opção mais adequada quando há comprometimento importante das safenas, varizes muito volumosas ou uma anatomia que não permite o acesso por dentro da veia. Por ser mais invasiva, a recuperação é mais lenta e o desconforto inicial maior. Isso não é defeito, é característica, e precisa entrar na conversa junto com a sua rotina de trabalho.

Laser na pele e vasinhos: não confunda

Existe uma confusão comum entre dois lasers de nomes parecidos e funções bem diferentes. O laser endovenoso entra dentro da veia por punção e trata troncos como a safena. O laser aplicado sobre a pele não fura nada e serve para vasos muito finos, os vasinhos.

Não são substituíveis. Tratar vasinhos na pele em quem tem a safena comprometida melhora o aspecto por um tempo, mas eles voltam, porque a pressão que os criou continua ali. É um dos motivos mais frequentes de insatisfação com tratamentos estéticos de perna: o problema de base nunca foi avaliado.

O que dizem os estudos de longo prazo

Nada do que escrevi acima é opinião de consultório. Existem pesquisas em que o tratamento de cada paciente foi definido por sorteio, e não pela preferência do médico, e depois essas pessoas foram acompanhadas por anos. É o tipo de estudo mais confiável que existe.

Cinco anos depois

Um estudo britânico acompanhou 798 pessoas por cinco anos, medindo o que interessa de verdade: quanto a perna incomoda no dia a dia. Quem fez laser e quem fez cirurgia sentia menos incômodo do que quem fez apenas espuma. A saúde geral era parecida nos três grupos, ou seja, a diferença aparece exatamente naquilo que a doença venosa provoca.

Catorze anos depois

Um grupo finlandês acompanhou pacientes por catorze anos, o que é raro nessa área. A pergunta era a mesma que você deve ter: o problema volta? Volta, mas em proporções muito diferentes. Pensando em cada 100 pessoas tratadas na safena, o problema retornou em cerca de 3 após a cirurgia, 6 após o laser e 31 após a espuma usada sozinha. A necessidade de um novo procedimento seguiu o mesmo caminho: cerca de 8 a cada 100 no laser, 13 na cirurgia e 56 na espuma.

Esse é o dado mais importante deste texto, e o que quase nunca aparece nas redes sociais. Se o seu exame mostra problema na safena e você quer um resultado que dure, laser e cirurgia têm vantagem clara sobre a espuma isolada.

Incômodo, recuperação e custo

No mesmo estudo britânico, problemas relacionados ao procedimento apareceram em cerca de 1 a cada 100 pessoas no laser, 7 na espuma e 8 na cirurgia. O laser também permitiu voltar mais rápido à rotina do que a cirurgia. É essa combinação, resultado que dura com pouco incômodo, que fez do laser a primeira opção para a maioria dos pacientes cuja anatomia permite.

Sobre dinheiro, há um ponto contraintuitivo. A espuma tem o menor custo inicial, mas as análises econômicas apontaram o laser como a opção mais vantajosa no conjunto, justamente pelo número de retratamentos. Um tratamento repetido ao longo dos anos custa mais do que o resolvido de uma vez.

Importante entender

Esses números falam de grupos de pessoas, não de você. A sua anatomia, a sua idade, os seus outros problemas de saúde e o seu risco para anestesia podem inverter completamente a melhor escolha.

Onde o laser tem desvantagem

Nenhuma técnica é perfeita. O laser trabalha com calor dentro da veia, e em alguns trajetos, principalmente abaixo do joelho, os nervos passam muito perto. Esse calor pode incomodá-los, causando áreas de formigamento ou de sensibilidade alterada na pele, na maioria das vezes temporárias. Para esses casos existem técnicas que fecham a veia sem calor, como uma cola biológica aplicada por dentro do vaso. São úteis no lugar certo, com a ressalva de que são mais recentes e ainda não têm acompanhamento de tantos anos.

Por que combinar técnicas é o mais comum

Na prática, o plano de tratamento raramente usa uma técnica só. É frequente tratar a safena com laser e, na mesma sessão ou em uma etapa seguinte, tratar as varizes visíveis com espuma. Depois, com o quadro venoso resolvido, cuidar dos vasinhos que sobraram.

Cada técnica resolve bem uma camada do problema, e tentar resolver tudo com uma ferramenta só é o que costuma gerar recidiva precoce. Por isso, quando alguém pergunta "é laser ou espuma?", a resposta mais honesta muitas vezes é "provavelmente os dois, em uma ordem que o Doppler vai dizer".

Quando tratar e quando esperar

Não toda variz precisa de procedimento imediato. Em muitos casos, medidas clínicas resolvem bem: atividade física, controle de peso, evitar longos períodos parado em pé, elevar as pernas e usar meia de compressão quando indicada.

O tratamento específico ganha prioridade quando há dor, peso, inchaço e cansaço que não melhoram com essas medidas, quando aparecem complicações como sangramento de variz, escurecimento da pele ou ferida, ou quando o quadro progride no acompanhamento.

Objetivo estético também é legítimo e deve ser dito com clareza na consulta, porque muda o planejamento.

Perguntas frequentes

O laser dispensa a cirurgia em todos os casos?

Não. O laser reduziu muito a necessidade de cirurgia aberta, mas existem situações de anatomia e de calibre em que a retirada da veia continua sendo a melhor escolha.

Volto a trabalhar no dia seguinte?

Depende da técnica e do seu trabalho. A espuma em geral permite retomar a rotina no mesmo dia. O laser tem recuperação rápida, com orientações de compressão nos primeiros dias. A cirurgia exige um período maior.

Qual técnica tem menos chance de a variz voltar?

Quando o tratamento é na safena, cirurgia e laser tiveram os melhores resultados no longo prazo, e a espuma usada sozinha os piores. Mas isso vale só para esse cenário. Para as veias menores e para varizes que voltaram, a espuma é adequada e muitas vezes a melhor opção.

Preciso fazer o Doppler antes mesmo de decidir?

Sim, e essa é a parte que não tem atalho. É o exame que define o diagnóstico e o plano. Sem ele, qualquer indicação de técnica é palpite.

Mitos que atrapalham a decisão

"Laser é sempre melhor porque é mais moderno." Mais recente não quer dizer mais indicado. O laser é excelente na indicação certa e inadequado em outras. Modernidade não é critério clínico.

"Espuma é tratamento paliativo." Não é. É uma técnica estabelecida, com indicações precisas, inclusive em varizes que voltaram após cirurgia.

"Cirurgia é coisa do passado." Também não. Permanece como referência científica e como melhor opção em determinadas anatomias.

"Se eu tratar, nunca mais tenho varizes." O tratamento resolve as veias doentes de hoje, e o acompanhamento cuida do amanhã. A predisposição continua existindo.

No fim, a decisão entre laser, espuma e cirurgia não é uma disputa entre tecnologias. É a leitura cuidadosa do seu mapa venoso somada a uma conversa honesta sobre sintomas, rotina e expectativas. Quando essas duas coisas se encontram, a escolha da técnica quase se apresenta sozinha, e o resultado deixa de ser uma aposta.

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Fontes

  1. Tratamento de varizes com laser endovenoso: estudo prospectivo com seguimento de 39 meses. J Vasc Bras. www.scielo.br/j/jvb/a/RkDGMBgcCKzRG97YkBXqbjB
  2. Gava NM, Silva AS, Maciel GSB, et al. Análise da eficácia do tratamento endovascular com escleroterapia por espuma na síndrome de congestão pélvica através de avaliação por ultrassonografia. J Vasc Bras. 2024;23. doi.org/10.1590/1677-5449.202301781
  3. Brittenden J, Cooper D, Dimitrova M, et al. Five-Year Outcomes of a Randomized Trial of Treatments for Varicose Veins. N Engl J Med. 2019;381(10):912-922. nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1805186
  4. Rahman T, Noronen K, Vähäaho S, Halmesmäki K, Venermo M. Fourteen Year Outcomes of a Randomised Controlled Trial Comparing Endovenous Laser Ablation, High Ligation and Stripping, and Ultrasound Guided Foam Sclerotherapy for Great Saphenous Varicose Veins. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2026.
  5. Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV). Diretrizes. sbacv.org.br/profissionais-da-saude/diretrizes

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a consulta médica. Somente um médico pode avaliar o seu caso, indicar exames e definir o tratamento adequado.